REFLEXÃO 01 · PERCEPÇÃO · ESTADO INTERNO · REALIDADE COMPARTILHADA

Nós Não Apenas Vivemos a Realidade. Nós a Construímos Juntos.

Uma reflexão sobre percepção, estado interno, realidade compartilhada e a forma como participamos continuamente daquilo que acontece depois.

Felipe Camargo · Ensaio & Reflexão

Ontem de manhã, enquanto tomava café, fiz uma coisa que normalmente não faço.

Abri um vídeo.

Ele mostrava um homem que havia sido morto por um segurança e dois entregadores depois de ser considerado suspeito.

A primeira coisa que veio à minha mente não foi uma resposta filosófica, nem uma tentativa de entender racionalmente o que eu estava vendo.

Foi uma reação.

Revolta.

Injustiça.

E quase imediatamente começaram a aparecer pensamentos:

Como isso pode acontecer?
Esses caras precisam ser responsabilizados.
Alguém precisa fazer alguma coisa.

Por alguns minutos, eu simplesmente fiquei dentro daquela experiência.

Depois, percebi algo que me interessou mais do que a própria reação.

O vídeo havia terminado.

Eu continuava sentado no mesmo lugar, com o mesmo café diante de mim.

Nada ao redor parecia particularmente diferente.

Mas eu estava.

Não dramaticamente.

Eu continuava sendo eu.

Só que alguma coisa havia mudado na forma como eu estava naquele momento.

Minha atenção estava diferente.

Meu corpo estava diferente.

Certos pensamentos estavam mais disponíveis.

E foi então que comecei a pensar no que exatamente tinha acontecido entre aquele vídeo e mim.

O que exatamente chega até nós?

Nós falamos sobre a realidade como se ela simplesmente estivesse diante de nós, pronta, inteira, esperando para ser percebida.

Mas talvez nossa experiência não aconteça exatamente dessa forma.

Quando eu assisti àquele vídeo, eu não recebi simplesmente “a realidade”.

Meus olhos receberam imagens.

Meus ouvidos receberam sons.

Meu sistema reconheceu pessoas, movimentos, expressões, ações.

Minha memória participou.

Minha história participou.

Aquilo que eu entendo como violência, injustiça, perigo e sofrimento também participou.

Eu não vi apenas corpos se movendo numa tela.

Eu vi um homem sendo agredido.

Reconheci aquilo como violência.

Interpretei intenção.

Imaginei sofrimento.

Julguei o que estava acontecendo.

E a partir de tudo isso surgiu a experiência que eu estava vivendo naquele momento.

Isso não significa que o mundo só exista quando nós o percebemos.

O acontecimento existia independentemente de mim.

O ponto é outro.

Aquilo que eu vivi daquele acontecimento não era uma cópia neutra e perfeita do mundo.

Era a forma como aquele acontecimento havia sido percebido, organizado e interpretado por mim.

Talvez toda experiência humana aconteça, em algum grau, nesse encontro entre aquilo que existe e o sistema que o experiencia.

Nós não recebemos o mundo completamente “cru”.

Nós o encontramos através dos nossos sentidos, da nossa história, do nosso corpo, das nossas expectativas e da nossa memória.

É daí que surge aquilo que vivemos como realidade.

E essa experiência não termina quando o acontecimento termina

Quando o vídeo acabou, aquela experiência não desapareceu junto com a imagem.

Alguma coisa permaneceu.

É isso que estou chamando aqui de estado interno.

Não quero usar essa expressão de uma forma abstrata.

Estado interno é simplesmente a forma como eu estava naquele momento.

Meu corpo.

Minha atenção.

Minhas emoções.

Os pensamentos que apareciam com mais facilidade.

Aquilo para o qual eu estava mais sensível.

Eu continuava sendo eu.

Mas não estava exatamente organizado da mesma maneira que alguns minutos antes.

Então me veio uma pergunta:

Se alguém viesse falar comigo naquele momento, eu responderia exatamente da mesma forma que responderia antes de assistir ao vídeo?

Provavelmente não.

Talvez meu tom fosse diferente.

Talvez minha paciência estivesse menor.

Talvez eu interpretasse uma frase com mais dureza.

Mesmo sem perceber conscientemente, aquilo que eu tinha acabado de viver já faria parte da forma como eu encontraria o próximo momento.

Nós não recomeçamos do zero a cada nova situação.

Cada novo acontecimento encontra um sistema que já chega até ele em alguma condição.

Agora coloque outra pessoa nessa cena

Imagine que, logo depois daquele vídeo, alguém entre na cozinha e comece a conversar comigo.

Essa pessoa não encontra simplesmente “Felipe”.

Ela encontra Felipe naquele momento.

E eu também não encontro simplesmente “outra pessoa”.

Eu percebo o tom dela.

A expressão.

As palavras.

A postura.

O contexto.

E organizo tudo isso dentro da minha própria experiência.

Então eu respondo.

Mas minha resposta não termina em mim.

Ela passa a fazer parte daquilo que a outra pessoa está vivendo.

Meu tom chega até ela.

Minha expressão chega até ela.

Minhas palavras chegam até ela.

Talvez ela perceba que estou tenso.

Talvez imagine que estou irritado com ela.

Talvez fique defensiva.

Talvez pergunte se aconteceu alguma coisa.

E então a resposta dela volta para mim.

Agora existe uma nova situação.

Uma situação que não existia antes da nossa interação.

E eu também vou percebê-la, interpretá-la e responder a ela.

É aqui que a coisa começa a ficar mais interessante.

Porque a interação não parece ser apenas duas pessoas expressando algo que já estava completamente pronto dentro de cada uma.

A própria interação vai produzindo novas condições enquanto acontece.

Minha experiência influencia minha resposta.

Minha resposta passa a fazer parte da experiência dela.

A resposta dela passa a fazer parte da minha.

E pouco a pouco surge uma dinâmica que nenhum dos dois carregava completamente pronta antes da conversa começar.

Nós vemos isso o tempo inteiro.

Uma conversa começa leve e fica tensa.

Outra começa desconfortável e, depois de uma brincadeira, todo mundo relaxa.

Uma frase abre um espaço que antes não existia.

Outra fecha esse espaço.

Um silêncio muda o significado daquilo que acabou de ser dito.

E muitas vezes ninguém decidiu conscientemente produzir aquele clima.

Ele foi surgindo.

A interação começou a se construir enquanto acontecia.

Talvez exista algo entre “a minha realidade” e “a sua realidade”

Quando duas pessoas interagem, cada uma continua tendo sua própria experiência.

Eu continuo percebendo a partir de mim.

Você continua percebendo a partir de você.

Mas existe uma coisa importante acontecendo entre nós.

Eu passo a fazer parte daquilo que você está percebendo.

Você passa a fazer parte daquilo que eu estou percebendo.

Minha resposta altera aquilo que você encontra no momento seguinte.

Sua resposta altera aquilo que eu encontro no meu.

Então parte do que estamos vivendo está acontecendo na relação.

Uma conversa é talvez o exemplo mais simples disso.

Ela não existe inteira antes de começar.

Minha primeira frase muda aquilo que pode vir depois.

Sua resposta muda novamente o cenário.

Uma pergunta pode abrir uma possibilidade.

Uma agressão pode fechá-la.

Um gesto pode mudar completamente o rumo da interação.

A realidade compartilhada daquela conversa vai sendo produzida enquanto conversamos.

E talvez isso não aconteça apenas em conversas.

Agora aumente o número de pessoas

Se essa dinâmica acontece entre duas pessoas, o que acontece quando colocamos dez?

Cem?

Mil?

Uma família.

Uma sala de aula.

Uma empresa.

Um estádio.

Uma manifestação.

Uma cidade.

Cada pessoa está percebendo, interpretando e respondendo.

Mas cada resposta também passa a fazer parte daquilo que as outras pessoas estão percebendo.

Uma pessoa ansiosa pode mudar o clima de uma sala.

Uma pessoa extremamente calma pode fazer o mesmo.

Uma risada pode se espalhar.

Uma tensão pode se espalhar.

Um comportamento pode se tornar aceitável porque outras pessoas começaram a repeti-lo.

Uma expectativa pode aparecer e, depois de aparecer, passar a influenciar as decisões de todo mundo que participa daquela situação.

Talvez seja assim que uma atmosfera coletiva começa a surgir.

Não porque todas as pessoas estejam sentindo exatamente a mesma coisa.

Nem porque exista algum tipo de mente coletiva misteriosa controlando todo mundo.

Mas porque as pessoas estão continuamente entrando na experiência umas das outras.

E, dessas interações, pode surgir algo que nenhum indivíduo produziu sozinho.

Um clima.

Uma expectativa.

Uma tensão.

Uma maneira compartilhada de interpretar o que está acontecendo.

E depois que isso surge, passa a influenciar novamente os próprios indivíduos que ajudaram a produzi-lo.

Talvez seja por isso que ambientes diferentes façam aparecer formas diferentes de nós mesmos.

Não necessariamente porque uma delas seja falsa.

Mas porque aquilo que está ao nosso redor participa da forma como estamos naquele momento.

E nós também participamos daquilo que está ao redor dos outros.

Então talvez exista uma pergunta maior aqui

Se aquilo que percebemos participa da experiência que vivemos;

se essa experiência modifica a forma como encontramos o momento seguinte;

se nossas respostas entram na experiência das outras pessoas;

e se, quando muitas pessoas interagem, podem surgir realidades compartilhadas que passam a influenciar novamente os indivíduos...

então talvez nós não estejamos apenas vivendo dentro de uma realidade pronta.

Talvez também estejamos participando continuamente daquilo que ela vai se tornando.

Isso não significa que criamos toda a realidade.

Nós não escolhemos as leis da natureza.

Não escolhemos tudo aquilo que acontece conosco.

Não controlamos todas as pessoas.

Mas existe uma parte do mundo que vem sendo modificada pela maneira como respondemos a ele.

Uma frase minha pode mudar o seu próximo minuto.

Uma resposta sua pode mudar o meu.

Uma decisão tomada por duas pessoas pode criar uma relação que antes não existia.

Uma decisão tomada por milhares pode modificar uma cidade.

E então me veio uma imagem.

A ponte

Imagine que estamos caminhando sobre uma ponte.

Atrás de nós, o caminho já está pavimentado.

Aquilo já aconteceu.

As experiências.

As escolhas.

As respostas.

As consequências.

Podemos olhar para trás.

Podemos tentar entender melhor o que aconteceu.

Podemos reinterpretar nossa própria história.

Mas aquela parte da estrada já foi construída.

À nossa frente, porém, o caminho ainda não está completamente pronto.

Isso não significa que exista liberdade infinita.

Existem limites.

Existem condições que nós não escolhemos.

Existem outras pessoas.

Existem acontecimentos que simplesmente chegam até nós.

Existem possibilidades que nunca estarão disponíveis.

Mas existem também coisas que ainda não aconteceram.

Respostas que ainda não foram dadas.

Conversas que ainda não aconteceram.

Relações que ainda não existem.

Caminhos que podem abrir ou fechar dependendo daquilo que acontecer agora.

E então alguma coisa acontece.

Nós percebemos.

Interpretamos.

Respondemos.

Nossa resposta passa a fazer parte do ambiente.

Outras pessoas respondem.

E aquilo que antes era apenas possibilidade começa a ganhar forma.

Pouco a pouco, o próximo trecho da ponte é pavimentado enquanto caminhamos sobre ele.

Talvez essa imagem resuma melhor o que estou tentando compreender.

Talvez nós não apenas caminhemos pela realidade.
Talvez, juntos, estejamos continuamente participando daquilo que ela vai se tornando.